Matéria-prima da Poesia

Brasília é uma pequena babilônia. Uma babilônia de sotaques de todos os lugares possíveis e imagináveis do Brasil. De acentos e entonações deles característicos e singulares. De palavras novas e de palavras anciãs. De português rococó. De português dos brasis. É a melhor cidade para um poeta trabalhar a linguagem na potencialidade da língua dentro de suas limitações. Em todos os lugares são audíveis os falares e o silêncio; e, por estar tão presente o silêncio, as palavras voam aos ouvidos.

Você não sabe, nem percebe: está acontecendo. A maior cidade mestiça da América do Sul, no dizer de Hatoum, não tem ainda um sotaque. E se tem, não é dominante, nem será por um bom tempo. Poderia ser São Paulo a maior cidade mestiça, mas é Brasília. São Paulo tem língua, acento e sotaques próprios. E muito embora Brasília não disponha de aparelhos culturais vigorosos para a Literatura, isso é atenuado por ser uma babilônia audível dos falares dos brasis. E é ou não é a palavra – e as aventuras da linguagem – a matéria-prima da Poesia?

Brasília-DF, 03 de junho de 2018.

Setor Comercial Sul, em Brasília-DF. Imagem disponível em: https://www.metropoles.com/conceicao-freitas/acredite-embora-maltratado-o-setor-comercial-sul-e-um-luxo-urbano%3famp

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